O espaço, a fronteira final… Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve! Era assim que se iniciava uma série de ficção que marcou gerações e que ajudou a prenunciar, por meio de suas expectativas de inovação advindas da tecnologia, inventos que hoje fazem parte de nosso cotidiano.

Sou um tanto quanto suspeito em relação a essa série, pois gosto muito dela, no entanto, eu gostaria de tratar hoje com você de uma outra fronteira e essa não seria as que se apresentam a respeito do espaço, ainda que perguntas sobre ele me inspire, e essa seria a fronteira da… morte.

Recentemente, ao esperar ansiosamente pelo resultado de alguns exames médicos, me deparei forçosamente com a possibilidade de lidar com essa fronteira e, mais uma vez, percebi que minha filosofia, minhas argumentações, minha retórica cuidadosamente planejada, já apresentada em alguns de meus textos anteriores, sucumbe com certa facilidade frente a essa certeza inevitável quando ela se apresenta, costumeiramente sem consulta prévia ou autorização.

Após os resultados momentaneamente otimistas desses exames, tive a impressão de que o peso do mundo saíra de minhas costas, o branco ficou mais branco, os momentos ficaram mais ricos, o frescor da possibilidade de vir a fazer algo novo, ou experimentar uma nova experiência, ganharam tons e intensidades que, até então, achava não mais existirem.

Foi tão intensa essa experiência que mesmo coisas simples, como o ato de respirar, muda radicalmente a forma como ele se realiza, me passando a clara e nítida impressão de que respiro mais e melhor.

No entanto, ainda que essa fronteira tenha sido vislumbrada ao longo de 20 longos dias de espera e eu tenha saído edificado dela, sei que ela aparecerá outras vezes, de modo cada vez mais constante, quer seja por meio das pessoas próximas a mim, visto que, como eu, também estão envelhecendo, ou através das mudanças em meu corpo e que, pouco a pouco, me dizem que estarão cada vez menos à altura dos meus sonhos e expectativas.

Dessa última experiência, saio com o aprendizado de que, muitas vezes, criamos inúmeras fronteiras para desbravar e dar sentido às nossas vidas, para esquecer a GRANDE fronteira e, ao fazer uso desse artifício, deixamos de usufruir dos amargos, mas necessários ensinamentos que ela nos traz.

Os orientais já haviam percebido a necessidade desse grande aprendizado, chamaram-no de dukkha e consideraram a primeira das quatro verdades. O mesmo aconteceu em nossa cultura, quando o filósofo Martin Heidegger disse que somos seres para a morte.

Não, eu não estou dizendo para ficarmos como que paralisados, em sofrimento continuo e ininterrupto frente a essa fronteira, o convite que te apresento agora é que, ao se aperceber da existência e certeza dela, que você possa, por meio da constatação de sua presença, fazer uma investigação a respeito do que é realmente significativo e que possa dar, a cada momento, o valor e intensidade devidos, pois esse mesmo momento se esvai, incessantemente.

A fronteira final é fatídica e inevitável, mas o que faço enquanto ela não se manifesta de modo definitivo, é certamente um ato de escolha, e o meu desejo é que você escolha bem.

Prof. Dr. Edson Renato Nardi
Coordenador – Filosofia Presencial e EAD
Centro Universitário Claretiano
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