Nos EUA e aqui estão sendo implementadas restrições à IA nas escolas, a propósito do receio do impacto para a aprendizagem com o uso na fase de desenvolvimento. Pesquisas mostraram que um grupo de crianças usou IA e outro não para temas de matemática. Os que usaram apresentaram desempenho inferior quando o acesso à IA foi removido. Estudo do MIT investigou o que acontece no cérebro quando se escreve com a ajuda da IA, indicando diferenças na conectividade cerebral entre quem escrevia sem – e com – ferramentas. Quem usou IA apresentou menor conectividade e demonstrou maior dificuldade de lembrar o que escreveu.
Dos estudantes à Advocacia, também se vê o fenômeno da “baixa conectividade”: nunca se viu tantas petições e contratos tão padronizados – até bem feitos – via IA por Advogados com pouca afinidade com o vernáculo e o próprio Direito.
Dados do Relatório sobre o impacto da IA no Direito/26 informam que ela tornou-se ferramenta rotineira. 76% dos profissionais utilizam nas petições; 59%, em pesquisas; 58%, na redação de; e 56% na análise e revisão de contratos, atividades com impacto sobre direitos, patrimônio e. O levantamento apontou que 55% desses profissionais nunca passaram por qualquer capacitação. Isso preocupa: há estudos que indicam taxa de erro superior a 17% em revisões jurídicas feitas sem supervisão humana.
Ao automatizar parte do trabalho repetitivo, a IA libera os melhores profissionais para fazerem o que realmente os diferencia, como pensar e decidir melhor, enxergar detalhes que escapam aos outros e produzir julgamentos de melhor qualidade.
O Advogado mediano vai utilizar a IA para entregar o aceitável e limitado, mas o excelente vai usá-la para chegar rápido ao ponto de partida e, então, acrescentar seu conhecimento aprofundado sobre o assunto, transitando melhor nas rotinas forenses e na condução de reuniões e inter-relações profissionais. Fácil distinguir quem apenas organiza boas frases de quem entende do problema.
A IA pode contribuir na solução de problemas lógicos, mas pode falhar quando se trata de situações humanas, cuja definição inclui subjetividades. Quando não há pura lógica na questão tratada, torna-se temerário aceitar sem análise humana o que a IA propõe. Quanto mais uma questão puder ser estritamente formalizada, melhor a IA. Quanto mais depender de conhecimento implícito, contexto e julgamento, mais arriscado será usá-la sem critério.
Premissas na Advocacia são inegociáveis: se o profissional quiser continuar na linha da ética e da prerrogativa constitucional de assegurar proteção às liberdades e ao patrimônio de seus clientes, a supervisão humana e o estudo constante continuam obrigatórios. Da produção do rascunho via IA até o produto final, o Advogado passa a direcionar mais energia para argumentação e tomada de decisões, reduzindo apenas o peso de tarefas repetitivas e operacionais de antes.
O mais temerário é refletir sobre “O Paradoxo da Dependência de IA”, escrito por Gilberto Sarfati, da FGV: quanto custará a inteligência artificial depois que já não conseguirmos trabalhar sem ela? Cada pergunta respondida pela IA custa dinheiro, mas plataformas gratuitas não cobram nada por elas. As empresas subsidiam hoje e viciam os profissionais que usam a IA porque apostam no depois. O problema não é quanto custa entrar hoje na IA; é quanto custará sair dela. Quando todos estiverem num nível de conectividade medíocre, terão que pagar o quer for para continuar usando a IA num contexto vicioso que poucos observam enquanto só visam lucro e facilidade.

Colaborador: Dr. Willian Nagib Filho advogado e sócio do escritório de advocacia; Nicolau Laiun, Lorenzon e Nagib Advogados





