{"id":4125,"date":"2018-08-09T15:34:42","date_gmt":"2018-08-09T18:34:42","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadeazulnoticias.com.br\/?p=4125"},"modified":"2018-08-09T15:34:42","modified_gmt":"2018-08-09T18:34:42","slug":"de-nariz-empinado-com-a-cabeca-baixa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadeazulnoticias.com.br\/de-nariz-empinado-com-a-cabeca-baixa\/","title":{"rendered":"De nariz empinado com a cabe\u00e7a baixa"},"content":{"rendered":"<p>Humildade. Essa \u00e9 uma das palavras de ordem que fazem parte de nosso cotidiano no Brasil. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para as nossas rela\u00e7\u00f5es sociais, verdadeira etiqueta social a nos impelir a um caminho que, em nossos di\u00e1logos, tenhamos humildade naquilo que fa\u00e7amos ou falemos. \u00c9 humilde aquele que n\u00e3o fica se gabando de ter conseguido isso ou aquilo, conquistado essa ou aquela, ou seja, aquele que n\u00e3o deixa levar pelo ego\u00edsmo e o egocentrismo. Na Gr\u00e9cia antiga, a \u00eanfase na humildade era realizada com o intuito de que evit\u00e1ssemos ser v\u00edtimas da hybris, o orgulho.<\/p>\n<p>A \u00eanfase na humildade como valor \u00e9 de tal modo que em nosso dia a dia que, costumeiramente, vejo meus alunos adolescentes, quando resolvem falar de algo que possuem ou fazem, ou que venha a discordar do outro, introduzirem no in\u00edcio de sua fala a frase: na humildade e, por meio dela, deixar claro aquele que o ouve que o que ele ir\u00e1 dizer n\u00e3o \u00e9 feito com o intuito de se promover ou ser superior a esse mesmo outro.<\/p>\n<p>Um dos desdobramentos costumeiros dessa nossa exig\u00eancia cotidiana por humildade pode ser vista tamb\u00e9m em eventos televisivos onde ficamos \u00e0 espreita de alguma pessoa n\u00e3o humilde e essa, se em algum momento mostrar-se despida da humildade, mostrar efetivamente a sua \u201cverdadeira cara\u201d, a taxamos imediatamente como arrogante, vaidosa, vil e definitivamente agimos para que sua falta de humildade seja efetivamente punida.<\/p>\n<p>Concordo com um aspecto moral presente na defesa da humildade, quando esse se insurge com a tentativa de algu\u00e9m buscar me submeter por meio da exposi\u00e7\u00e3o constante de suas qualidades e capacidades, no entanto, ser\u00e1 que n\u00e3o estar\u00edamos indo longe demais em nossas exig\u00eancias? Falo isso porque, muitas vezes, percebo que as pessoas e n\u00f3s mesmos nos envergonhamos de, em determinado momento, deixarmos escapar uma ou outra qualidade que esta presente em n\u00f3s, ou seja, o ato de possuir e manifestar qualidades passou a ser um problema em nossa cultura.<\/p>\n<p>Um exemplo a esse respeito aconteceu recentemente em um uma das minhas aulas de filosofia voltada para alunos adultos que estudam na modalidade supletivo no Ensino M\u00e9dio. Havia dado uma atividade onde os alunos teriam que escrever algumas coisas que n\u00e3o podem mudar, visto que est\u00e3o al\u00e9m de suas possibilidades e for\u00e7as e, por outro lado, coisas que necessitariam de coragem para poderem ser realizadas. Ao analisar as respostas produzidas, me deparei com a de uma aluna de 43 anos que apresentou in\u00fameros desafios que teve ao longo de sua vida e listou as vit\u00f3rias que conseguiu, afirmando considerar-se uma vencedora frente a tudo isso e, em determinado momento, enquanto lia o texto ao lado dela, preocupada que eu n\u00e3o a visse como sendo uma pessoa humilde, ao seu modo ela se desculpou por ter apresentado essas vit\u00f3rias dizendo que n\u00e3o queria em nenhum momento passar-se por arrogante. Seria realmente necess\u00e1rio isso? H\u00e1 algum defeito em nos percebermos bons em algo ou possuirmos qualidades?<\/p>\n<p>N\u00e3o estou s\u00f3 nesse meu questionamento a respeito de alguns dos problemas presentes na humildade. J\u00e1 no in\u00edcio da filosofia, o pensador grego Arist\u00f3teles se recusou a considerar a humildade como uma virtude e a considerou que ela se caracterizaria por manifestar um v\u00edcio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 virtude da Magananimidade (Megalopsychia) ou Orgulho Apropriado. Para o fil\u00f3sofo, aquele que sabe reconhecer adequadamente suas qualidades e defeitos, perceber\u00e1 que possui qualidades e as demonstrar\u00e1 e, por outro lado, que possui defeitos e que tamb\u00e9m os reconhecer\u00e1. Segundo ele, podemos pecar pelo v\u00edcio do excesso dessa virtude e acharmos que somos perfeitos em tudo e cairmos em uma vaidade vazia e, por outro lado, n\u00e3o reconhecermos que possu\u00edmos qualidades e adentrarmos ao v\u00edcio da falta do orgulho apropriado: a humildade.<\/p>\n<p>Seguindo Arist\u00f3teles, o meu receio \u00e9 que, em nosso pa\u00eds e em nossa cultura, talvez n\u00e3o estejamos sabendo equilibrar adequadamente nosso orgulho apropriado e, quem sabe, estamos enfatizando por demais o v\u00edcio da falta em detrimento da busca do equil\u00edbrio entre nossas qualidades e defeitos e, com isso, a busca, exerc\u00edcio e manifesta\u00e7\u00e3o de qualidades tornou-se um grande defeito moral em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesse sentido, te lan\u00e7o um desafio para que voc\u00ea comece a se analisar frente a essa quest\u00e3o: Voc\u00ea em algum momento ficou envergonhado de manifestar ou tentou se convencer que n\u00e3o possui qualidades? Se a resposta sua for afirmativa, eu gostaria de te convidar a seguir o caminho proposto por Arist\u00f3teles e equilibrar essa sua balan\u00e7a existencial entre os defeitos e qualidades que, certamente, voc\u00ea possui.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>Prof. Dr. Edson Renato Nardi<\/strong><br \/>\nCoordenador \u2013 Filosofia Presencial e EAD<br \/>\nCentro Universit\u00e1rio Claretiano<br \/>\n(16) 3660-1777 Ramal 1472<br \/>\nfilosofia.ead@claretiano.edu.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Humildade. 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