Há meses encontramos aqui em Rio Claro e região lojistas e produtores de eventos reclamando que o dinheiro sumiu. Prejuízos e mais prejuízos nas lojas, supermercados, restaurantes, feiras e shows. O Banco Central identificou o aumento da renda das famílias não sendo acompanhado por crescimento proporcional do consumo ou da poupança, porque parte desses recursos está migrando para as apostas. O desemprego tem menor taxa nos últimos anos e, mesmo assim, o dinheiro do povo desapareceu. Foi parar nas bets!
Esse “produto” é responsável por aumentar o endividamento das famílias e afetar a educação de jovens, entre tantos outros problemas. O Instituo Locomotiva apurou que 86% dos apostadores têm dívidas, 64% dos quais já estão “negativados”. Entre os inadimplentes, quase 1/3 aposta regularmente, afetando o orçamento doméstico e trazendo ansiedade, estresse, culpa e alterações de humor.
No estudo “O impacto das bets na educação superior”, realizado pela ABMES, 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por causa de gastos com apostas: 1 milhão de brasileiros fora do ensino superior. O Banco Central revela que o pessoal do Bolsa Família movimentou 3,7 bilhões via pix em apostas em janeiro de 25.
O Ministério da Justiça vai monitorar a publicidades das bets, centrando mira na CazéTV, muito embora todas as detentoras da transmissão da Copa tenham anunciantes bets. CazéTV, Globo, SBT, N Sports incentivam o consumo e se financiam a partir dessas verbas publicitárias.
A ideia do Ministério é implementar regulações e restrições publicitárias, já que o alerta estatal quanto aos riscos sociais, psíquicos e econômicos das apostas parece não ter resultante satisfatória. Regular e restringir não é ferir liberdades, mas limitar a publicidade do que tem altíssimo potencial de dano às famílias. Quem quer jogar tudo bem, mas não pode estar todo o tempo estimulado sem conhecer os riscos.
A China proíbe tudo. Na Inglaterra não pode mais propaganda do gênero nas camisas dos clubes. No Brasil, as apostas foram liberadas em 2018, reguladas em 2023 e a opção foi a de liberar geral a publicidade.
O alerta governamental “jogue com responsabilidade” soa como piada. Os consumidores existem e irão jogar na legalidade ou na ilegalidade. Por isso é preciso bom senso na regulamentação e controle da propaganda para não se estimular, indiretamente, o jogo ilegal, muito forte no Brasil, onde estudos já mostram que cerca de 19% dos apostadores reduziram gastos em supermercados para sustentar o hábito de jogar.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que, anualmente, cerca de R$ 103 bilhões deixam de circular no comércio formal por conta da migração para as bets, ainda mais diante da facilidade de acesso via cartões e carteiras virtuais.
O pesquisador da USP, Rafael Zanata, em entrevista para o “Estadão” de 27 passado, fala dessa plataformização do vício: o apostador não vai ao cassino físico, é tudo on line, mais fácil, o que justifica a avalanche de endividados com as bets, “clientes viciados” que vão ao SUS, dos quais maridos que, em superendividamento, vendem eletrodomésticos da casa ou deixam de comprar alimentos aos filhos e por aí vai!
“Bets e você, tudo a ver”, porque é sobre -e no bolso de – todo mundo que estoura a coisa, cujo “efeito na sociedade é devastador” (ex-craque Raí)

Colaborador: Dr. Willian Nagib Filho advogado e sócio do escritório de advocacia; Nicolau Laiun, Lorenzon e Nagib Advogados





