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Guerras, revoluções e epidemias (ou armas, aço e germes) são três fatores que aceleram a história. Após passar a atual pandemia, a tendência será o que os historiadores chamam de “Explosão de Sociabilidade”.

Leandro Karnal, em entrevista recente à CNN, rodeado de brilhantes mentes femininas, pontuou haver, após recolhimento e morte, uma grande explosão de vida. Após o isolamento, pós-guerra ou depois de epidemias, manifestações de grande alegria pipocam em todos os cantos. Karnal falou do Renascimento depois da peste negra e da moda em Paris ao depois da Revolução Francesa, quando todos, extravagantemente, punham tudo e mais um pouco ao se vestir e sair alegremente às ruas depois do enclausuramento de longa data e incomensuráveis perdas humanas.

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Nas cidades como Rio Claro o pós-pandemia levará, mesmo que pouco a pouco, o cidadão a sair da toca: visitará mais, sairá mais, confraternizará mais, enfim, exercerá, à exaustão, suas conquistas civilizatórias e se entrelaçará com quem puder, no trabalho, na escola, na balada, nas praças, no comércio, na floresta, no boteco, no shopping, nos clubes de serviço, nos postos de gasolina e, principalmente, nos clubes recreativos sociais.

Trabalho interessante de Laura Rinaldi e Marcos Ruiz da Silva, por ocasião do XI Simpósio Internacional do Processo Civilizador, intitulado “Os Clubes Sociais e Recreativos e o Processo Civilizatório Brasileiro: Uma relação de Hábitos e Costumes”, define bem que essas entidades são manifestações democráticas de participação popular, resultando da vontade de grupos de interesses, atendendo diferentes segmentos da sociedade, sejam originários de imigrantes, das variadas elites, de classes trabalhadoras, iniciativas públicas ou empreendimentos privados. A estimativa, segundo a Confederação Brasileira de Clubes, é de que mais de 50 milhões de Brasileiros tenham algum vínculo associativo com clubes.

Em Rio Claro acolhem milhares de associados o Clube de Campo, o Floridiana, o Grêmio dos Ferroviários, o Grêmio da Bela Vista e o Ginástico (a “Phila” ainda agoniza!). Os associados são seus proprietários, detentores de joias com direitos e deveres estabelecidos estatutariamente. Elegem dentre seus pares quem melhor pode manter e fazer progredir.
A concentração de significativo número de associados também nos clubes de Rio Claro é consequência natural da preocupação das pessoas com suas integridades físicas, psicológicas e morais. Num exercício de auto segregação, acumulam-se nos vários clubes associados de origens, formações e classes sociais distintas, mas todos numa atmosfera unicamente prazerosa e convergente, principalmente para a recreação e o esporte.

Pois bem: só adere e se torna associado quem tem afinidade, interesse e capacidade contributiva para pagamento da Taxa de Manutenção e Desenvolvimento, ao menos até tornar-se remido (categoria que já não mais prevista na maioria dos estatutos).

Associados de qualquer deles sabe bem o que significa a sociabilidade clubística que os transforma em prolongamento dos lares, onde o agradável congraçamento de gerações justifica a maioria dos clubes já ter atingido (ou estar próximo de completar) 100 anos de existência.

Quando os diretores se descabelam e gritam pela manutenção do pagamento das taxas de manutenção, fazem-no em nome da preservação dessas estruturas que são imprescindíveis ao convívio social saudável e seguro. A pandemia vem sendo o pior teste. Nada visto antes, demandando verdadeiras acrobacias para não cerrar de vez as portas de agremiações protagonistas que foram, são e serão, da história de gerações que nelas cresceram, constituíram famílias, laços afetivos e passaram bom tempo de suas vidas fortalecendo a sociabilidade clubística que bem caracteriza o Povo Rioclarense.

Tudo isso para dizer que neste momento é fundamental que o associado, como e com quanto puder, deve esforçar-se para continuar ativo nos quadros de seu clube preferido. Quem está sem recursos – e muitos assim estão – deve se ajustar de alguma forma com a Diretoria (descontos, repactuação de dívidas, etc.. etc..), lembrando que, quando a explosão de sociabilidade pós-pandemia for deflagrada, é especialmente nos clubes que a alegria voltará. É nos clubes que o povo, ainda com medo, irá reencontrar seus pares, extravasar e, a um só tempo, absorver a energia positiva e necessária para enfrentar novos tempos, inevitáveis diante de tudo que estamos a viver presentemente.

William Nagib Filho, Conselheiro da OAB/SP, é presidente do Grupo Ginástico Rioclarense.

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