Como estou ainda absorvendo racionalmente o choque advindo do que ocorreu no Museu Nacional do Rio de Janeiro, gostaria de compartilhar com você uma outra reflexão também advinda de um fato ocorrido nessa semana.

Estava eu na escola onde atuo, discutindo como ocorreria a semana de sete de setembro e o que poderíamos ou não fazer para realizarmos uma cerimônia referente a esse dia. Nessa escola, todas as quintas feiras nós realizamos uma cerimônia onde é apresentada os símbolos nacionais (bandeiras) e cantamos o hino nacional. Ao longo do tempo em que isso é feito, percebo muita resistência de alguns professores quanto a esse hábito e, até mesmo, certa indignação quanto a esse procedimento.

De modo geral, a reclamação é a de que ao realizarmos essa cerimônia, estamos como que aceitando o atual estado de coisas com a qual nos encontramos, estaríamos nos alienando dos problemas existentes e agindo para a manutenção do status quo.

Considero que essa argumentação tem ganho cada vez mais força, isto porque, em minha cidade, não temos mais as cerimônias costumeiras em que havia a participação de toda a comunidade, onde se fechava uma rua e nela se realizava um grande desfile de instituições e grupos os mais variados.

Ao debater com um colega professor sobre esse tema nessa mesma semana, percebi que a contrariedade do profissional a essa manifestação se manifestou no argumento de que, quando ela é realizada, não estaríamos pensando criticamente, estaríamos deixando de lado toda a nossa história de exploração, cultuando falsos heróis e ídolos, ou seja, não estaríamos agindo para realizarmos as mudanças que nosso país necessita.

Confesso que mais ouvi que falei nessa conversa com o colega, no entanto, após ela, fiquei cá pensando comigo se seria isso mesmo que ocorreria quando manifestamos nosso patriotismo. A minha conclusão a respeito dessa reflexão foi negativa, visto que, eu acho que meu colega, no afã de tratar de questões legítimas, o faz de um modo que, devido a extensão de suas conclusões e ações, por demais extremadas, acaba por contribuir para a piora dessa situação em que nos encontramos. Dito de outro modo, e seguindo o dito popular: na tentativa de nos livramos da sujeira, jogamos junto o bebê com a água do banho.

Essa sujeira a que me refiro, trata-se de confundirmos pessoas, líderes e governos com a nação e, também com que é chamado de monopolização do patriotismo. O que seria isso? Ele ocorreria quando, em nome do patriotismo, aceitamos cegamente as pessoas que compõe nosso grupo e, por outro lado, demonizamos outros grupos/nações que não compõe o nosso grupo e ou pessoas que, ainda que estejam em nosso país, ao não aderirem a um líder ou ideologia vigente, também são demonizados. O resultado disso pode ser percebido, ao longo da história, nas perseguições ocorridas no nazismo, fascismo, stalinismo e outros tantos ismos que se construíram no século XX e que produziram mortes e violências as mais variadas.

Pode ser percebido também, nos Estados Unidos, no período de 1950 a 1954, quando cidadãos americanos foram perseguidos por adotarem posicionamentos tidos como liberais ou comunistas e, em terras próximas, na Argentina de Perón ou na Venezuela de Hugo Chavez/Maduro.

No Brasil, essa postura ficou conhecida no velho adágio: Brasil, ame-o ou deixe-o. Chamo sua atenção para esse ditado em um especial aspecto: para amar o meu país eu deveria necessariamente amar seguindo determinada fórmula específica, ou seja, eu não poderia amá-lo de outro modo. O grande problema do patriotismo nesses moldes monopolistas é que ele é incapaz de perceber outras modalidades de patriotismo, ou seja, torna-se analógico.

Considero essa crítica relevante, no entanto, em nome dela, ao se extinguir toda e qualquer manifestação do patriotismo, elimina-se também o patriotismo em seus aspectos legítimos e necessários, o que ocasiona também inúmeros malefícios a todos nós.

Afirmo isso, porque o patriotismo, quando não é monopolizado, permite que tenhamos uma percepção de unidade, ou seja, compomos um grupo, temos uma coesão quanto a determinados temas, nos mobilizamos frente a inúmeros desafios e pertencemos a um mesmo território e uma mesma sociedade.

Por meio dele, ainda que sejamos diferentes uns dos outros, nos consideramos integrados e unidos, estabelecemos aquilo que os gregos chamam de télos (finalidade) para nossas vidas e, por outro lado, também produzimos aspirações que nos irmanam em nossos desafios existenciais futuros, nos impelindo, muitas vezes, a abandonarmos nosso narcisismo costumeiro que nos afasta cada vez mais uns dos outros.

Quando nos empenhamos por um patriotismo legítimo, temos apreço por nossa cultura e todos os elementos materiais, culturais e ambientais que se encontram em nosso país;

Se desistimos de cultivar um elemento que nos une, a nação onde nos encontramos, vai se desintegrando pouco a pouco, pois não nos sentimos mais pertencentes e preocupados com ela, deixamos de nutrir amor aonde estamos e deixamos de contribuir ou nos sacrificarmos para que ela prospere e se solidifique por meio de nossas ações cotidianas.

Um dos desdobramentos da perda do patriotismo é a manifestação do desejo de abandonarmos o país/nação onde nos encontramos e isso tem ocorrido cada vez mais e, sejamos francos, vez ou outra, manifestamos, muitas vezes, nós mesmos esse desejo.

Em razão disso, concluo considerando que há uma necessidade urgente de resgatarmos essa faceta legítima do patriotismo pois, em nome da exclusão dos aspectos negativos do patriotismo monopolizador, extinguiu-se a manifestação de toda e qualquer manifestação do patriotismo.

Para enfatizar essa necessidade, me despeço desse texto por meio de um filósofo que tenho grande apreço e que produziu conclusão semelhante a minha sobre esse tema, o filósofo escocês Alasdair MacIntyre: Se eu não entendo a narrativa promulgada da minha própria vida individual como incorporada na história do meu país… Eu não vou entender o que devo aos outros ou o que os outros devem a mim, para quais crimes da minha nação estou obrigado a reparar. Para quais benefícios para minha nação sinto-me obrigado a sentir gratidão. Entender o que é devido para e por mim e compreender a história das comunidades das quais eu faço parte é… uma e a mesma coisa

Prof. Dr. Edson Renato Nardi
Coordenador – Filosofia Presencial e EAD
Centro Universitário Claretiano
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