A cena foi, no mínimo, inusitada. Tudo ocorreu em uma praia de Redondo Beach na Califórnia. O diretor de um canal ecológico da CBS, uma das gigantes redes de tv norte-americanas, se dedicava a tirar fotos de algumas baleias que se moviam por entre os barcos e, em algumas dessas fotos, pode perceber algo inusual, uma dessas baleias se aproximou muito de um barco mas o proprietário que lá estava em nenhum momento pode perceber o que estava ocorrendo, ele se encontrava como que paralisado, impassível e concentrado, dedicando-se a algo que lhe exigia enorme concentração e cuidado, ele se dedicava inteiramente ao profundo e insubstituível ato de averiguar as mensagens que se apresentavam para ele em seu celular.

Muitas são as possibilidades para se justificar o que ocorreria naquele momento, mas o fato é que o proprietário daquele barco que, certamente, o havia comprado para deslizar pelos mares, singrar os oceanos, entrar em contato com a natureza em sua porção mais assustadora e provocante, perdeu um momento único ao se fechar em si mesmo e em suas abstrações promovidas pela sedução de imagens, posts e afagos de uma pequena tela iluminada por leds.

O fato ocorrido pode parecer por demais incomum para nós, meros mortais, que não temos o dinheiro suficiente para comprarmos um barco, no entanto, eu fico me perguntando, quantas vezes talvez tenhamos perdido oportunidades únicas que se passam ao nosso redor ou deixamos de viver o que ocorre no momento presente, com as pessoas e paisagens que se encontram em nosso ambiente, inebriados e seduzidos pelas nossas ideias, planos e ou pequenas imagens que se apresentam para nós por meio do mundo das novidades eletrônicas.

Com isso, nos apossamos cada vez mais de inúmeros planos, problemas, estratégias, sonhos, desejos, nossa cabeça fica cada vez mais cheia de uma multidão de estímulos, mas nos esquecemos quase que integralmente de um segredo já há muito falado por poetas e filósofos: o de que saibamos viver o presente.

Para que você tenha uma ideia dessa importância, esse sábio conselho era tão importante que os monges medievais, ao se encontrarem uns com os outros nos corredores de seus monastérios se cumprimentavam do seguinte modo: ao se aproximarem, o primeiro deles dizia: Memento Mori (lembre-se da morte) e que era prontamente respondido com uma resposta pelo outro que se aproximava: Carpe Diem (Vivamos o dia).

Perceba que nesse cumprimento há o convite crucial de que possamos viver as oportunidades do presente, isto porque, se não vividas, serão perdidas e o presente finito manifestado pela possibilidade de se viver irá inexoravelmente se esvair ao longo dos dias de nossa única vida.

Diante dessa emergência que se apresenta pela finitude certa, fico cá cobrando de mim mesmo a necessidade urgente de que possa olhar para as coisas e conseguir, de fato, vê-las, ouvir o que o mundo sussurra a cada momento e que possa, de fato, escutar o que está sendo dito.

Nesse exercício desafiador e necessário há ainda um complemento muito importante e sabiamente apresentado pelo nosso sábio poeta Fernando Pessoa, o de que possamos faze-lo, sem pensar nisso.

Exercício desafiador não? Que tal se dar o desafio de, após ler esse texto, verificar o que o mundo, pessoas e paisagens estão a te apresentar nesse momento?

Prof. Dr. Edson Renato Nardi
Coordenador – Filosofia Presencial e EAD
Centro Universitário Claretiano
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